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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O QUARTO ESCURO – RELATO DO MEU EU INFANTIL

Olho pela janela e vejo como o dia está cinzento. Chuva, vento, frio. Ao longe, uma mãe briga com seu filho pequeno, dizendo a ele para parar de incomodá-la com suas perguntas idiotas. Pobre mãe, se ela conhecesse a sabedoria das crianças, nunca falaria uma frase absurda dessas! Então naquele momento me lembrei de algo da minha infância que me marcou muito.
  Quando criança, nunca tive medo de escuro. Meu quarto não me dava medo, porque sabia que se acendesse a luz ele ia aparecer bonito e aconchegante como sempre foi. Mas eu fiquei com muito medo do quarto escuro do meu avô.Teve uma época em que ele não saia de lá, ficou trancado lá por meses. E sempre que queria entrar lá e acender a luz para falar com ele, ele não me deixava acender a luz por nada neste mundo. Dizia que é falta de educação fuxicar o quarto dos outros e me ameaçava com castigos se eu desobedecesse. Só que um dia eu não liguei para isso, porque se meu quarto aceso era tão bom, porque o quarto do meu avô não seria também? Então um dia tomei coragem a acendi a luz!
     Não pensem que encontrei lá bichos papões.Eles não me davam medo, porque sempre soube que não existe mesmo. Mas o que vi ali me deixou muito assustado. Não era nada horripilante, era apenas meu avô. Triste, chorando, deitado, sem querer falar com ninguém. Não entendi aquilo, corri para ele e perguntei por quê ele chorava. Ele me deu bronca, disse que eu nunca devia acender aquela luz.Ele na verdade tinha vergonha de dizer que não gostava de viver e que estava deprimido, porque o mundo era cruel,  as pessoas o decepcionavam,  era toda hora passado para trás,  todos eram violentos, aproveitadores, manipuladores, e um monte de palavra difíceis que na época não entendi.No fim, disse que tinha sofrido tanto que tinha medo de viver e que era preferível ficar ali e sair na rua e sofrer.
   Não compreendi muita coisa do que ele tinha dito, mas mesmo sendo criança percebi que o medo de viver tinha assustado meu avô muito mais que os bichos papões imaginários E acabei assustado também, porque até aquele momento não sabia o que era medo de viver, já que minha vida de criança era tão boa, com brincadeiras, alegria e tudo mais.
   Vendo meu avô naquele estado, o que fiz? Algo que lembrarei para o resto da minha vida: saí correndo, o abracei e disse: “Não tenha medo de nada vovô, você sempre me amou e me ensinou a ser corajoso, agora eu vou te amar e te ensinar a ser corajoso também!
  Depois daquele dia, meu avô saiu daquele estado. Nunca mais se trancou no quarto escuro. Nunca mais teve medo de viver, porque começou a viver como uma criança: alegre, espontânea, sincera, ajudando a todos, sem guardar mágoa, amando muito, brincando muito, exatamente como eu o ensinei e como sempre vivi quando criança. E assim a depressão dele sumiu, junto com seu medo de viver.
  Para terminar digo que se algum dia tivermos depressão e medo de viver, peçamos a qualquer criança que nos ensine a sermos corajosos e alegres como elas são.
  

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